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Empresa de Sorocaba reverte 100% do lucro em causas socioambientais via Instituto Vivero

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Criado por Eugenio Pachelle, fundador da Eduzz, o projeto apoia iniciativas em diversas áreas, como natureza e meio ambiente, educação, saúde integral e artes

Em Mafra, no interior de Santa Catarina, Edson Eckel via a fiscalização notificar, mais uma vez, que sua comunidade terapêutica para adultos em situação de dependência de álcool, drogas e outras compulsões precisava adequar sua estrutura e capacidade de atendimento para cumprir as exigências relacionadas ao convênio federal. Faltava estrutura para acolher mais gente e, se a situação não mudasse, corria o risco de perder o financiamento que sustenta metade das vagas da instituição.

A quase 500 quilômetros dali, em São Francisco Xavier, distrito paulista de cerca de 4 mil habitantes, Juliano Barone fazia constantemente um trajeto de quatro horas de ônibus até São Paulo para conseguir trabalhos extras que pagassem as contas do espaço cultural voltado à formação artística e cultural de crianças e jovens que ele mantinha sozinho. As economias acabaram. Ele pegou um empréstimo pessoal para não fechar as portas. Chegou a avisar a própria equipe que aquele poderia ser o último ano do projeto.

Duas histórias, dois estados, dois públicos completamente diferentes: pessoas em recuperação de dependência química de um lado, crianças e jovens em formação artística do outro. O que estes projetos e suas histórias têm em comum? Ambos receberam aporte do Vivero, fundo brasileiro de investimentos regenerativos, e encontraram nos recursos e no acompanhamento do Instituto novas possibilidades para ampliar e dar continuidade ao impacto que já produziam em suas comunidades.

Atena: da falência à referência nacional em acolhimento

A história da instituição que viria a se tornar a Associação Terapêutica Novo Amanhecer (Atena) começou em 2002. Em 2005, após uma reformulação conduzida por Edson Eckel, passou a adotar o nome Atena e a estrutura que daria origem ao trabalho desenvolvido atualmente. Naquele período, Edson também reconstruiu a própria trajetória após concluir seu tratamento contra a dependência de álcool e drogas. O modelo de trabalho que ele construiu ao longo de mais de duas décadas se apoia menos na palavra “internação” e mais no conceito de “acolhimento”. Trata-se de um modelo residencial, transitório e voluntário, em que a pessoa avança por fases de autonomia crescente até estar pronta para retomar a própria vida.

Hoje, a Atena mantém duas unidades: a masculina, com 43 vagas, e a feminina, ampliada recentemente para até 30 pessoas. Juntas, atendem pessoas de baixa renda a classe média, moradores em situação de rua até pacientes em tratamento de vício em jogos e apostas online.

A instituição também enfrentava um desafio financeiro: os diferentes convênios públicos cobrem parte do atendimento, mas os recursos precisam sustentar uma estrutura que envolve acolhimento, alimentação, equipe e manutenção. Edson estima em cerca de R$ 1,3 mil o custo mensal per capita de cada pessoa acolhida.  Sem capacidade de ampliar a estrutura física, a Atena corria o risco de perder o convênio federal por não conseguir ocupar o número mínimo de leitos exigido pela fiscalização.

Com o investimento do Vivero, a Atena construiu 340 m² de área nova: ala administrativa, ambulatório, banheiros sociais (que antes não existiam para as mulheres) e um banheiro adaptado para cadeirantes. 

A dimensão do trabalho também aparece no histórico da instituição: em agosto de 2026, a Atena já registrava mais de 2 mil acolhimentos desde o início de sua trajetória. Para Edson, porém, o impacto não se resume à quantidade de pessoas que passam pelas unidades, mas também às relações familiares, sociais e profissionais que podem ser reconstruídas a partir delas.

“A gente quer devolver ao mundo um cidadão e quando eu escuto de pessoas que ainda nem terminaram o tratamento o quanto o projeto mudou a vida delas, esse é um combustível para que eu continue nesta missão. Além do recurso financeiro, que é importante para mantermos o projeto, o Vivero nos apoiou com mentorias que mudaram a nossa mentalidade sobre gestão e profissionalização e isso faz toda a diferença para evoluirmos”, conta Edson Eckel, fundador do Atena.

Colibri: de uma queixa de adolescentes a uma associação gerida por ex-alunos

Em São Francisco Xavier (SP), o percurso começa em 2006, quando Juliano Barone funda a Educato, núcleo que une produção, arte e educação e que ele viria a levar para dentro de escolas e teatros parceiros ao longo dos anos seguintes. Foi quase uma década atrás, após um período de esgotamento pessoal, que ele decidiu se mudar para o pequeno distrito paulista sem conhecer ninguém, sem carro, com a intenção inicial de dar apenas algumas aulas nos fins de semana.

“O que me fez ficar foi uma constatação simples, ouvida direto dos próprios jovens: adolescentes de 14 a 24 anos reclamavam por não ter nenhum espaço de formação artística na região. Quem tinha recursos financeiros ia embora estudar ou trabalhar em outro lugar; quem não tinha ficava exposto a um mercado de trabalho turístico muitas vezes precário, com baixos salários. Foi para responder a esse cenário que nasceu o que hoje é a Associação Cultural Canto do Colibri, uma escola de formação de atores (única na região), com biblioteca, teatro e aulas de música, dança e canto, com programação cultural ativa o ano inteiro”, explica Juliano Barone, fundador do Colibri. 

Mesmo com essa relevância, o projeto nunca se sustentou sozinho. Juliano viveu, na prática, o esgotamento de manter uma instituição cultural em uma cidade de 4 mil habitantes: bancava do próprio bolso, contraiu empréstimo pessoal e chegou a avisar a equipe de que talvez precisasse encerrar as atividades. O aporte do Vivero, somado à capacitação da aceleradora Global para todo o time do Colibri, permitiu não apenas fôlego financeiro, mas a formalização da associação e o início de uma etapa de preparação para captação de recursos, inclusive por meio da Lei Rouanet. 

O resultado mais expressivo, porém, não está só nos números. Embora eles também impressionem para o tamanho do distrito: de 100 a 200 alunos por semestre em cursos livres e técnicos, e uma Virada Cultural anual (já na quarta edição) que reuniu cerca de 1.200 pessoas em nove dias, com entrada gratuita. O mais notável é que o projeto hoje é gerido, majoritariamente, por ex-alunos: pessoas que começaram como estudantes de teatro e hoje coordenam a escola, a produção e a própria associação.

Entre eles, está Penelope Serena. Ainda adolescente, durante uma palestra de Juliano em uma escola da região, ela levantou a mão e disse que queria ser atriz, mas não enxergava como poderia seguir essa carreira permanecendo em São Francisco Xavier. A inquietação se tornou uma das motivações para a criação da escola de formação de atores. Anos depois, Penélope passou a integrar o próprio Colibri como professora, produtora e uma das profissionais envolvidas na gestão do projeto.

Por que uma empresa de Sorocaba decidiu investir em regeneração?

Criado em 2025 por Eugenio Pachelle, fundador da Eduzz, comunidade com soluções 360 focadas em empreendedores digitais que querem expandir seus negócios, o Vivero utiliza diferentes instrumentos conforme a natureza de cada iniciativa apoiada. Para projetos sociais e ONGs, o Instituto pode realizar doações, com metas e indicadores definidos. Na frente de negócios, trabalha com instrumentos como crédito corrigido por IPCA ou CDI e investimentos com participação societária. Em artes, atua ainda com recursos, produção, distribuição e construção de comunidades. 

Os lucros da Eduzz que caberiam ao fundador são integralmente destinados ao Instituto, que direciona esses recursos para iniciativas de regeneração. A lógica vai além de reservar pontualmente uma parcela do lucro para causas sociais: o resultado da participação alimenta o fundo e amplia sua capacidade de apoiar novos projetos.

O modelo adotado pelo Vivero encontra poucos paralelos conhecidos no mundo. Em um levantamento realizado pelo próprio Instituto sobre estruturas semelhantes ao redor do mundo, foram identificados precedentes internacionais como Carl Zeiss Stiftung, Rolex, Newman’s Own, Humanitix e Patagonia, cada um com modelos e características próprias. 

O fundo não se limita ao aporte financeiro. Também atua no desenvolvimento dos projetos apoiados por meio de trilhas de educação e mentorias, apoio à estrutura administrativa, comunidade e conexões, buscando fortalecer iniciativas até que alcancem autonomia.

“Uma empresa pode ser medida pelo que vende, pelo que ela cresce e pelo que constrói. Mas existe outra pergunta que sempre nos interessou: o que pode acontecer por causa dela? O Vivero hoje sustenta projetos de natureza, educação, saúde integral e artes por todo o Brasil. São histórias diferentes, com origens diferentes, mas que caminham na mesma direção: entender que resultado também é o que se transforma fora do negócio”, afirma Eugenio Pachelle.

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