Especialistas apontam que o problema não está nas ferramentas de inteligência artificial, mas na ausência de uma infraestrutura baseada em APIs preparadas para agentes de IA
A inteligência artificial tornou-se prioridade absoluta na agenda de inovação do mercado segurador global, mas os resultados práticos na operação ainda esbarram na infraestrutura tecnológica das companhias. De acordo com o estudo World Property and Casualty Insurance Report 2026, elaborado pela Capgemini, 81% das seguradoras apontam os sistemas legados e as limitações da arquitetura de TI como a principal barreira para escalar soluções de IA.
Na avaliação do mercado, quando uma iniciativa de inteligência artificial falha em entregar o resultado esperado, a tendência é culpar a própria tecnologia. No entanto, para quem atua no segmento, o obstáculo real está na fragmentação de dados e na rigidez das plataformas legadas.
Para Weliton Costa, Business Development Director Latam do insureMO e especialista com mais de 30 anos de atuação no setor, muitas companhias acreditam estarem prontas para a era da IA apenas por possuírem APIs, mas existe uma diferença abissal entre uma interface tradicional e uma arquitetura AI-ready.
“Imagine um robô chef de cozinha com capacidades extraordinárias em um espaço onde os ingredientes não têm rótulos e os equipamentos exigem manuais complexos. Ele será inútil porque não vai saber encontrar as coisas. É exatamente isso o que acontece quando tentamos conectar IAs generativas a sistemas core legados”, compara Weliton.
Segundo o executivo, o desencontro entre a IA e os sistemas tradicionais ocorre por três fatores centrais: a utilização de linguagens proprietárias, onde a IA, treinada em padrões globais, falha ao decifrar dialetos de fornecedores e gera códigos inoperantes; a ausência de APIs granulares, já que os sistemas legados utilizam estruturas monolíticas em vez das operações atômicas e independentes exigidas pela IA; e a dependência do conhecimento tribal, cujas regras de negócio implícitas e sem padronização impedem que os modelos de linguagem compreendam as reais diretrizes do produto.
“Como consequência, a indústria tem corrido para aplicar ‘guardrails’ e políticas externas de governança sobre o código gerado. Contudo, a solução definitiva não é o remendo, mas a reformulação da camada de integração”, explica Weliton. Para ele, a resposta para acelerar os ganhos com a tecnologia está em operar sobre uma camada de API desenhada nativamente para interagir com agentes de IA e assistentes de programação — utilizando formatos abertos como o padrão OpenAPI e servidores Model Context Protocol (MCP).
“As seguradoras que vão liderar a era da IA são aquelas cuja arquitetura de seus sistemas promoverem a reusabilidade de maneira inteligente. Quando temos APIs atômicas orquestradas para compor fluxos de negócio — desde a busca do produto até a emissão do bilhete —, a eficiência agêntica deixa de ser ficção. As companhias presas a integrações proprietárias continuarão com ciclos de desenvolvimento medidos em meses, enquanto as preparadas entregarão novidades em prazos altamente otimizados”, concluiu Gustavo Leança, Director for Insurance da Capgemini.








