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Gen Z e a crise da comunicação institucional: o problema não é a geração, é o discurso

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Maurílio Goeldner*

Pela primeira vez na história moderna, a efetividade do “Efeito Flynn” — uma regra básica que prevê que cada geração nasce mais inteligente do que a anterior — foi revogada, tendo em vista que a Gen Z está registrando pontuações de QI inferiores aos Millennials, conforme revela o estudo recém-publicado pelo New York Post. Para além dos impactos no mercado de trabalho, debatidos globalmente já há alguns anos, a notícia provoca uma inquietação criativa, fazendo com que questionemos, diante de uma geração hiperconectada, exposta a estímulos contínuos e com padrões cognitivos aparentemente distintos, como a comunicação institucional deve estruturar suas narrativas?

A tentação de interpretar os dados como sinal de “empobrecimento cognitivo” é grande e perigosa, porque confunde métrica tradicional com inteligência contemporânea. A Gen Z pode não performar da mesma forma em testes padronizados, mas demonstra alta fluência digital, capacidade de leitura multimodal e agilidade na decodificação de discursos. Trata-se de uma geração que navega entre vídeo curto, texto longo, meme político e relatório técnico na mesma timeline. O problema, então, não é falta de capacidade, é excesso de estímulo e escassez de paciência para o que não entrega valor imediato.

É aqui que a comunicação institucional encontra seu maior desafio, já que durante décadas, nos estruturamos sobre controle, formalidade e linearidade. O press release era quase um documento notarial: objetivo, impessoal, recheado de adjetivos seguros e declarações previsíveis. A campanha institucional, por sua vez, operava sob a lógica da mensagem central fechada, cuidadosamente aprovada em múltiplas instâncias internas. Esse modelo ainda funciona para públicos específicos, mas perde potência diante de uma geração treinada para detectar artificialidade.

A Gen Z não rejeita complexidade; rejeita vazio. Não recusa dados; recusa autopromoção sem lastro. Não ignora posicionamentos; ignora marcas que evitam se posicionar. Cresceu assistindo a crises reputacionais em tempo real, acompanhando denúncias, cancelamentos e exposições públicas de incoerências corporativas. Desenvolveu, portanto, um radar refinado para inconsistência entre discurso e prática. Nesse contexto, a comunicação institucional deixa de ser apenas um instrumento de visibilidade e passa a ser um teste constante de credibilidade.

Isso exige uma mudança estrutural na produção de conteúdo. Não se trata de “falar jovem”, incorporar memes de forma forçada ou transformar todo comunicado em vídeo vertical. Trata-se de assumir clareza radical, reduzir jargões, oferecer dados verificáveis e aceitar a lógica da conversa, não mais do monólogo. A mensagem não termina quando é publicada, ela começa ali e será recortada, comentada, remixada e, acima de tudo, questionada. 

Nesse cenário, outro ponto sensível é justamente a velocidade. A cultura digital é instantânea, enquanto a comunicação institucional ainda costuma ser lenta, atravessada por camadas de aprovação e aversão a risco. O descompasso é evidente. Quando a resposta oficial chega, a narrativa já foi construída por terceiros. Para dialogar com a Gen Z, é preciso ganhar agilidade sem perder responsabilidade, isso porque essa geração cobra coerência em temas como diversidade, sustentabilidade e impacto social. Não basta mencionar ESG em um parágrafo protocolar do release, é preciso demonstrar compromissos mensuráveis e continuidade de ações. A comunicação institucional passa a operar como vitrine permanente de prestação de contas e transparência deixa de ser diferencial competitivo para se tornar requisito básico.

No fim das contas, talvez a discussão sobre o “declínio” do Efeito Flynn seja menos relevante do que parece para o setor de comunicação. A questão central não é se a Gen Z é mais ou menos inteligente, mas como ela processa informação, estabelece confiança e decide engajar. Simplificar excessivamente pode soar condescendente. Manter o discurso tradicional pode soar distante. O desafio está em combinar profundidade com clareza, consistência com agilidade, estratégia com autenticidade. 

Portanto, se existe uma crise, ela não está na capacidade cognitiva da geração, está na dificuldade das organizações em revisar seus próprios modelos narrativos. A Gen Z não exige menos conteúdo, exige melhor conteúdo, e, para a comunicação institucional, isso significa abandonar fórmulas confortáveis e assumir que a reputação, hoje, é construída em diálogo contínuo, sob escrutínio permanente e em velocidade máxima.

Talvez o verdadeiro teste de inteligência, afinal, não seja o da geração que consome a mensagem, mas o das instituições que insistem em produzi-la como se o mundo ainda fosse analógico.

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