Direito

ONU classifica escravização de africanos como maior crime da humanidade e reacende debate sobre educação antirracista no Brasil

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Para especialista da Inaperê, resolução reforça urgência de enfrentar desigualdades estruturais por meio da educação

A recente resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade, recoloca no centro do debate global a necessidade de enfrentar os legados históricos da escravidão. A medida, aprovada com ampla maioria, incluindo o voto favorável do Brasil, também propõe que países considerem pedidos formais de desculpas e contribuam para fundos de reparação.

Para Leo Bento, professor e cofundador da consultoria Inaperê, o posicionamento da ONU vai além de um reconhecimento simbólico. “Quando a ONU nomeia a escravização como o maior crime da humanidade, ela está, na prática, exigindo que os países encarem as consequências desse processo histórico de forma concreta. Isso inclui olhar para as desigualdades raciais que persistem até hoje”, afirma.

Por séculos, milhões de africanos foram sequestrados, traficados e submetidos a regimes de exploração em diferentes partes do mundo. O Brasil, que recebeu mais de 4 milhões de pessoas escravizadas, foi o último país das Américas a abolir oficialmente a escravidão, em 1888. Para especialistas, esse passado ainda se reflete em indicadores sociais, econômicos e educacionais.

“A desigualdade racial no Brasil não é um fenômeno acidental. Ela é resultado direto de um processo histórico que nunca foi devidamente reparado. Por isso, discutir reparação não é apenas olhar para o passado, mas transformar o presente”, explica Léo Bento.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou a necessidade de enfrentar os efeitos duradouros da escravidão, como o racismo estrutural e as barreiras que impedem pessoas negras de exercer plenamente seus direitos. Nesse contexto, a educação surge como um dos principais caminhos para promover mudanças consistentes.

Segundo a Inaperê, a construção de uma educação antirracista é parte fundamental desse processo. “A escola tem um papel estratégico na formação de consciência crítica. Não se trata apenas de ensinar história, mas de criar condições para que estudantes compreendam como o racismo opera e como pode ser combatido no cotidiano”, diz Léo.

Para o especialista, isso exige uma abordagem transversal. “A educação antirracista não pode estar restrita a datas ou conteúdos específicos. Ela precisa atravessar todo o currículo e envolver toda a comunidade escolar, da gestão aos professores e demais colaboradores”, reforça.

A resolução da ONU também abre espaço para um debate mais amplo sobre memória, justiça e reparação. Na avaliação da Inaperê, o reconhecimento internacional pode impulsionar políticas públicas e práticas institucionais mais comprometidas com a equidade racial.

“Reconhecer o passado é um passo importante, mas não suficiente. É preciso transformar esse reconhecimento em ação. E a educação é, sem dúvida, uma das ferramentas mais potentes para isso”, conclui Léo Bento.

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