Saúde

Psicoterapeuta que perdeu a visão durante doença autoimune alerta: “O corpo sempre encontra uma forma de pedir socorro quando ignoramos nossos limites”

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Após enfrentar uma doença rara, Daniele Caetano transformou a própria experiência em ferramenta para ajudar pessoas a reconhecerem os sinais de esgotamento antes que eles comprometam a saúde física e emocional

Em uma sociedade que incentiva produtividade constante, alta performance e a busca pelo equilíbrio perfeito entre carreira, família, vida pessoal, saúde e relacionamentos, muitas pessoas vivem sob a sensação permanente de que nunca estão fazendo o suficiente. Para a psicoterapeuta e especialista em saúde emocional Daniele Caetano, essa é uma das maiores armadilhas da atualidade.

Foi justamente quando precisou interromper completamente a própria rotina que Daniele compreendeu, na prática, o impacto de ignorar os limites do corpo e da mente. Em 2023, ela foi diagnosticada com uma doença autoimune raríssima, depois de um longo processo de investigação médica. Os primeiros sintomas começaram com fortes dores de cabeça persistentes, evoluindo rapidamente para a perda progressiva da visão de um dos olhos.

Sem respostas imediatas, Daniele permaneceu internada por 45 dias enquanto passava por uma extensa investigação médica. Mesmo com exames enviados ao exterior, a doença não pôde ser identificada. Os especialistas encontraram apenas indícios que justificavam os sintomas e recomendaram o início imediato do tratamento com sessões de plasmaférese.

Durante esse período, ela perdeu completamente a visão e também a autonomia para realizar tarefas simples do dia a dia. Felizmente, respondeu bem ao tratamento e recuperou totalmente a visão. Nos dois anos seguintes, apresentou novos episódios da doença, que provocaram perda temporária dos movimentos das pernas e incontinência urinária, também revertidos com acompanhamento médico. Hoje, está em remissão, enquanto seu caso continua sendo estudado por especialistas no Brasil e no exterior.

Mais do que a recuperação física, a experiência transformou profundamente sua forma de enxergar a vida e, principalmente, sua atuação profissional.

“Antes eu também acreditava que bastava me organizar melhor para dar conta de tudo. A doença me mostrou, da forma mais dura possível, que o corpo fala. Quando ignoramos os sinais por muito tempo, ele encontra uma maneira de nos obrigar a parar. Hoje eu entendo que autocuidado não é luxo nem recompensa. É necessidade”, afirma Daniele.

Segundo a psicoterapeuta, um dos maiores problemas da atualidade é a romantização da ideia de que é possível conciliar tudo ao mesmo tempo.

“Vivemos cercados por conteúdos que ensinam como equilibrar carreira, filhos, casamento, vida social, saúde, exercícios, estudos… Mas a verdade é que esse equilíbrio perfeito não existe. Em determinados momentos, algum prato vai cair. E tudo bem. O problema é acreditar que precisamos manter todos girando ao mesmo tempo, sem falhar nunca. Essa cobrança gera culpa, frustração e um desgaste emocional enorme.”

Daniele explica que o corpo costuma emitir diversos sinais antes de chegar ao seu limite. Alterações no sono, irritabilidade constante, dores recorrentes, dificuldade de concentração, cansaço persistente e perda do prazer em atividades antes consideradas importantes são alguns dos alertas que costumam ser negligenciados.

Para ela, aprender a reconhecer esses sinais pode evitar consequências muito mais graves. “Hoje eu presto atenção ao meu corpo. Sei quando preciso diminuir o ritmo, rever prioridades e respeitar meus limites. Aprendi que preservar minha saúde não significa desistir dos meus sonhos, mas garantir que eu continue tendo condições de realizá-los. Não existe vitória em viver permanentemente exausta.”

A especialista também defende que reconhecer as próprias conquistas faz parte do processo de preservação emocional. “Estamos sempre olhando para o que falta, para a próxima meta, para aquilo que ainda não fizemos. Pouco celebramos o caminho percorrido. Quando aprendemos a valorizar nossas conquistas e aceitar que não precisamos entregar 100% em todas as áreas ao mesmo tempo, diminuímos uma cobrança que simplesmente não é humana.”

Hoje, além dos atendimentos clínicos, Daniele utiliza sua própria trajetória para conscientizar empresas, profissionais e famílias sobre a importância da prevenção em saúde emocional, reforçando que não é preciso esperar o corpo impor uma pausa para compreender a importância do autocuidado.

“Minha história não me tornou especialista apenas porque vivi uma doença. Ela me tornou uma profissional mais sensível, mais consciente e mais preparada para ajudar outras pessoas a perceberem aquilo que, muitas vezes, elas insistem em ignorar: ninguém consegue sustentar uma vida inteira no limite.”

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