Com 6,3 mil empresas em recuperação judicial e reestruturações bilionárias de grandes companhias, avanço dos casos pode produzir efeitos sobre empregos, fornecedores, crédito, consumidores e atividade econômica
O Brasil chegou ao fim do primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, dentro de um universo de 2,76 milhões de companhias consideradas no núcleo relevante da economia, segundo levantamento do Monitor RGF-BIZDOC. O número representa alta de 6,2% no primeiro semestre e de 21,2% em 12 meses, reforçando um movimento que já havia levado o país a encerrar 2025 em nível recorde. Em agosto, o cenário ganhou dois casos de grande porte: o Grupo Casas Bahia, que recorreu à recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões, e a Braskem, que protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões, cerca de R$ 54 bilhões, em obrigações financeiras.
Os dois casos seguem caminhos jurídicos diferentes, mas ajudam a mostrar o que está em jogo quando empresas de grande porte precisam reorganizar suas dívidas. Por trás dos valores bilionários estão empregos, contratos com fornecedores, investimentos, operações financiadas por crédito e compromissos com consumidores. Quando esse movimento ocorre em um cenário de crescimento das recuperações judiciais no país, a discussão deixa de envolver somente a capacidade de uma companhia pagar seus credores e passa também pelos possíveis efeitos dessas reestruturações sobre diferentes elos da economia.
O pedido das Casas Bahia envolve dez empresas do grupo e ocorre dois anos depois de a companhia ter recorrido à recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 4,1 bilhões. A decisão acontece após um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões e o anúncio do fechamento de quase 300 lojas. No caso da Braskem, que optou pela recuperação extrajudicial, a reestruturação abrange cerca de R$ 54 bilhões em obrigações financeiras. A dimensão desses casos ajuda a mostrar que o cenário chama atenção tanto pelo número de empresas em dificuldade quanto pelo volume financeiro e pelas cadeias econômicas envolvidas nas renegociações.
Embora processos de recuperação judicial ou extrajudicial tenham causas próprias, relacionadas à estrutura de capital, ao nível de endividamento, às decisões de gestão e às características de cada setor, a multiplicação dos casos em diferentes segmentos levanta uma questão mais ampla: o que acontece com a economia quando um número crescente de empresas precisa recorrer a mecanismos formais para reorganizar suas dívidas? Juros elevados aumentam o custo de rolagem do endividamento e de novas captações, enquanto a restrição de crédito reduz a margem para financiar operações, investimentos e capital de giro. Na prática, isso pode se traduzir em redução de investimentos, fechamento de unidades, renegociação com fornecedores e cortes no quadro de funcionários.
Para o advogado e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Fernando Moreira, quando esse contexto coincide com um número recorde de empresas recorrendo à recuperação judicial, é preciso considerar também as condições estruturais para produzir, financiar e manter negócios no país. “É claro que cada empresa tem seus próprios problemas e que erros de gestão precisam ser considerados. Mas, quando as recuperações judiciais batem recordes, não podemos analisar milhares de casos como se fossem fenômenos isolados. Precisamos olhar também para o ambiente de negócios brasileiro”, afirma.
Um dos principais pontos em jogo é a capacidade de essas empresas preservarem suas operações enquanto reorganizam as dívidas. Empresas mais endividadas tendem a ter menos espaço para investir, ampliar atividades ou absorver períodos de queda nas receitas. Em situações mais graves, a reorganização pode envolver venda de ativos, fechamento de unidades, revisão de contratos e redução de custos. Quando se trata de grandes companhias, essas decisões alcançam uma cadeia extensa de fornecedores, prestadores de serviços e trabalhadores e podem chegar também ao consumidor.
Para fornecedores, especialmente pequenos e médios negócios que dependem de poucos clientes de grande porte, o atraso ou a renegociação de recebíveis pode comprometer o capital de giro e a capacidade de manter suas próprias operações. Para os trabalhadores, processos de reestruturação podem significar fechamento de unidades, redução de postos de trabalho e incertezas sobre a manutenção dos empregos. Já para os consumidores, os efeitos podem chegar à entrega de produtos, à continuidade da prestação de serviços, às garantias e ao cumprimento de contratos. “Quando uma empresa entra em dificuldade, toda uma cadeia é afetada: trabalhadores, fornecedores, prestadores de serviços, pequenos empresários e suas famílias. Por isso, defender quem empreende e defender quem trabalha não são pautas opostas. São partes do mesmo problema”, explica.
O crédito é outro ponto importante nessa equação. Quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser a cautela de bancos, investidores e fornecedores na concessão de financiamento ou prazo para empresas, principalmente aquelas que já apresentam maior nível de endividamento. Essa restrição pode atingir inclusive negócios que não estão em recuperação, mas dependem de crédito para financiar estoques, contratar funcionários ou investir. O efeito, portanto, pode ultrapassar as companhias diretamente envolvidas nos processos e influenciar decisões de investimento, emprego e consumo.
É justamente para tentar evitar que uma crise financeira termine no encerramento de uma empresa economicamente viável que existe a recuperação judicial. O instrumento permite reorganizar dívidas e preservar atividades enquanto ocorre a negociação com os credores. A recuperação extrajudicial segue uma lógica semelhante, mas possibilita uma negociação direcionada com determinados grupos de credores e posterior homologação judicial. A preservação da atividade empresarial tem uma dimensão econômica e social porque envolve a continuidade de empregos, contratos, pagamentos, fornecimento de produtos e serviços e arrecadação.
Por isso, o avanço das recuperações coloca duas questões em paralelo. A primeira é se as empresas que recorreram a esses instrumentos conseguirão reorganizar suas finanças e preservar operações economicamente viáveis. A segunda é anterior: por que um número cada vez maior de negócios está chegando ao ponto de precisar de uma reestruturação formal de suas dívidas?
Para Moreira, a resposta passa por fatores como juros, acesso ao crédito, carga tributária, burocracia, segurança jurídica e previsibilidade para investimentos, sem afastar a responsabilidade das próprias companhias pela gestão financeira e estratégica. A preocupação aumenta quando dificuldades individuais começam a se repetir em diferentes setores e a alcançar empresas de portes distintos.
“Precisamos de um Brasil em que seja mais fácil produzir, investir, contratar e crescer. Porque empresa saudável gera emprego, renda e oportunidades. E trabalhador valorizado ajuda a construir empresas mais fortes. Não podemos continuar tratando esses dois lados como adversários”, conclui.








