Saúde

US$ 46 bilhões passam pelo faturamento hospitalar no Brasil. IA muda a equação desse mercado

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Glosas e precisão das contas lideram as prioridades globais de IA na saúde. No Brasil, essa nova lógica financeira já chega a 4 dos 10 maiores grupos hospitalares do país com tecnologia da Revena

Enquanto boa parte da corrida por inteligência artificial na saúde ainda acontece em aplicações clínicas e na experiência do paciente, a tecnologia também avança sobre o faturamento hospitalar, um fluxo pelo qual passam cerca de US$ 46 bilhões por ano no Brasil. É nesse caminho, que conecta o cuidado prestado ao dinheiro que efetivamente chega ao hospital, que a IA imprime uma nova lógica a uma das estruturas financeiras mais complexas do setor.

Os sinais já aparecem entre as prioridades das próprias lideranças de saúde. Pesquisa da McKinsey com 215 executivos globais avaliou 17 aplicações de IA e tecnologias avançadas para o ciclo da receita. As duas primeiras colocadas estão diretamente relacionadas ao faturamento: 57% apontaram a gestão de glosas e recursos como prioridade e 56%, o aumento da precisão de codificação e documentação. Outros 51% afirmaram priorizar IA e tecnologias avançadas para o ciclo da receita, enquanto 45% relataram aumento no custo de cobrança.

Por trás desses números está um processo que ainda depende de uma quantidade expressiva de trabalho humano. Para faturar a jornada de um único paciente, hospitais podem precisar revisar centenas de páginas de prontuários e cruzar essas informações com contratos de dezenas de fontes pagadoras. Cada procedimento, medicamento, material e regra contratual precisa ser corretamente identificado e sustentado antes que a conta siga para pagamento.

É nesse mercado que a Revena, healthtech brasileira especializada em IA para o ciclo da receita hospitalar, constrói sua tese. A empresa conecta informações clínicas, contratos, protocolos e sistemas para automatizar parte das decisões envolvidas na construção e revisão das contas médicas. Em suas operações, a companhia registra entre 5% e 12% de redução de perdas evitáveis, ganhos de eficiência operacional entre 55% e 75% e fechamento de contas em até 48 horas. A Revena já atua em 4 dos 10 maiores grupos hospitalares do Brasil e captou R$ 45 milhões em rodada seed.

“A saúde construiu uma infraestrutura tecnológica sofisticada para cuidar do paciente, mas uma parte importante da infraestrutura financeira que sustenta esse cuidado ainda depende de pessoas lendo documentos e interpretando regras manualmente. A IA muda essa equação porque permite que decisões complexas também sejam processadas em escala. É uma mudança que vai muito além de produtividade: estamos falando de como bilhões de dólares circulam dentro do sistema de saúde”, afirma Mateus Noronha, CEO e fundador da Revena.

A oportunidade, na visão da empresa, não termina na conta médica. Somados faturamento, contas a pagar e produtos financeiros, a Revena estima um mercado potencial de US$ 5,3 bilhões em receita para uma nova camada de infraestrutura financeira da saúde. A tese é que resolver o núcleo do faturamento abre caminho para produtos adjacentes em um setor no qual o intervalo entre o atendimento e o recebimento pelo hospital pode chegar a 90 a 120 dias.

A discussão também ultrapassa o Brasil. Nos Estados Unidos, onde parte relevante do faturamento hospitalar já é terceirizada, a Revena identifica o mesmo componente de trabalho manual entre fornecedores tradicionais e planeja iniciar sua expansão para o mercado americano. A companhia vê a combinação entre IA, dados clínicos e regras financeiras como base para automatizar fluxos que, até a chegada dos modelos de linguagem, eram difíceis de endereçar tecnologicamente em profundidade.

“Uma das aplicações mais relevantes de IA na saúde está fora da assistência direta ao paciente, na infraestrutura que permite ao hospital continuar cuidando dele. Conforme a tecnologia consegue interpretar prontuários, contratos e regras de negócio ao mesmo tempo, uma parte do sistema financeiro da saúde até então difícil de automatizar se torna endereçável por software”, diz Noronha.

Para a Revena, essa mudança ajuda a explicar por que o ciclo da receita já está ocupando  as primeiras posições entre as prioridades globais de IA. Em um setor pressionado por aumento de custos, margens estreitas e demanda crescente, o acesso à inteligência artificial, por si só, já não representa uma vantagem competitiva. O diferencial está na capacidade de aplicá-la aos fluxos econômicos mais críticos da saúde.

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