“Hoje eu vou dormir no outro quarto.” Quem ouve essa frase pode imaginar uma discussão, um desentendimento ou até uma crise no relacionamento, mas nem sempre é assim. Na minha casa, essa decisão nunca foi sinônimo de distância, muito pelo contrário.
Quando um de nós está gripado, enfrentando uma noite difícil ou quando um dos nossos filhos caninos precisa de cuidados durante a madrugada, simplesmente pegamos o travesseiro e seguimos para outro quarto, sem drama, sem ressentimento.
Fazemos isso porque entendemos que, naquela noite, preservar o descanso do outro é uma forma de cuidar. Enquanto um permanece acordado administrando um medicamento, observando ou oferecendo colo a um companheiro de quatro patas adoecido, o outro dorme. E, na manhã seguinte, desperta com energia suficiente para assumir a vez. Talvez, isso também seja amor.
Vivemos em uma cultura que romantizou a ideia de que casais felizes devem dormir juntos todas as noites. Como se compartilhar a mesma cama fosse um certificado diário da qualidade do relacionamento, mas será mesmo?
Ainda explorando a riqueza de dados da Pesquisa Global do Sono 2025, realizada pela ResMed com mais de 30 mil pessoas em 13 países, mostra que cerca de um terço dos entrevistados identifica o ronco, a respiração ruidosa ou a falta de ar do parceiro como importantes fatores de interrupção do sono. O estudo chama esse fenômeno de “divórcio do sono”: casais que, ocasionalmente ou de forma permanente, escolhem dormir em quartos separados para preservar o descanso.
À primeira vista, isso pode soar como um afastamento, mas a ciência revela uma história mais interessante. Dormir ao lado da pessoa amada também produz benefícios importantes. Entre os entrevistados, os sentimentos mais associados ao compartilhamento da cama foram amor, conforto, relaxamento, felicidade e calma.
Estudos citados no relatório ainda mostram que casais que dormem juntos apresentam menores níveis de estresse, ansiedade e depressão e podem ter maior tempo de sono REM, fase essencial para a consolidação da memória e para o equilíbrio emocional.
Então perguntamos, se dormir juntos faz tão bem, por que alguns casais dormem separados? Porque o problema é a qualidade do sono. Quando um parceiro ronca intensamente, sofre de apneia, está doente ou passa noites acordado por qualquer motivo, insistir em dividir o mesmo quarto pode significar duas pessoas privadas de descanso em vez de apenas uma. A privação de sono cobra um preço alto. Quando dormimos mal, nossa capacidade de raciocinar e reagir fica prejudicada, a paciência encurta, diminui a capacidade de ouvir, assim como a disposição para acolher.
Não é difícil imaginar como isso pode atingir um relacionamento.
No meu caso, convivo com a insônia há muitos anos. O Jô, felizmente, não.
Possivelmente por isso aprendemos algo simples, porém de grande valor: proteger o sono um do outro é também proteger o nosso relacionamento e nunca encaramos isso como um afastamento, ao contrário. É uma decisão feita em conjunto: “Hoje eu cuido da noite. Amanhã você cuida do dia.”
Percebo que, muitas vezes, confundimos proximidade física com intimidade, mas intimidade não é permanecer lado a lado a qualquer custo. É conhecer suficientemente o outro para saber quando permanecer e quando permitir que ele descanse. A própria ResMed faz uma observação importante: antes de transformar o “divórcio do sono” em rotina definitiva, vale investigar causas tratáveis, como o ronco intenso e a apneia do sono. Em muitos casos, cuidar da saúde permite recuperar tanto o descanso quanto o prazer de voltar a compartilhar a mesma cama.
No fim das contas, talvez a pergunta nunca tenha sido: “Dormir separado salva casamentos?”. Talvez a pergunta certa seja outra: Será que estamos cuidando do sono com o mesmo carinho com que cuidamos do nosso relacionamento?
Porque existem noites em que o maior gesto de amor não é permanecer ao lado, mas garantir que quem amamos acorde melhor na manhã seguinte.








