Porque o avanço da poliamida 6 revela mais do que uma tendência e aponta o futuro do vestir no país
(Por Renato Benvenuti CEO da RVB)
A moda brasileira vive uma transformação silenciosa, porém profunda. Performance, conforto e bem-estar deixaram de ser atributos restritos ao esporte para se tornarem critérios centrais de escolha no guarda-roupa cotidiano. Esse movimento ajuda a explicar o crescimento consistente das fibras sintéticas no país, com destaque para a poliamida 6 (PA6, nylon 6), que hoje ocupa posição estratégica em segmentos como moda esportiva, athleisure, underwear, lingerie e moda praia, categorias diretamente ligadas ao movimento, ao uso intenso e ao contato prolongado com o corpo.
Os dados confirmam essa virada. Entre 2020 e 2024, o consumo de fibras sintéticas no Brasil cresceu 12,2%, enquanto o de fibras naturais avançou 7,5%, segundo o Relatório Setorial Brasil Têxtil 2025, da IEMI – Inteligência de Mercado. O mesmo levantamento mostra que a produção nacional de têxteis é estimada em 10,2 kg por habitante, frente a um consumo de 13 kg por habitante, reforçando o papel estrutural das importações no abastecimento do mercado interno.
Mais do que uma mudança quantitativa, trata-se de uma mudança cultural. O consumidor brasileiro passou a valorizar atributos objetivos e mensuráveis: conforto térmico, toque macio, elasticidade, boa recuperação, resistência ao desgaste e secagem rápida. Em construções de malha voltadas ao movimento e ao uso contínuo, essas características estão fortemente associadas à poliamida 6, o que explica sua crescente adoção por marcas e confecções que buscam desempenho aliado à estética.
A consolidação do athleisure ajuda a contextualizar esse cenário. Estimativa divulgada pela Forbes Brasil, com base em relatório do IMARC Group, indica que o mercado brasileiro desse segmento movimentou US$ 4,28 bilhões em 2024, com projeção de alcançar US$ 6 bilhões até 2033. A fusão entre moda e performance deixou de ser tendência passageira para se tornar uma dinâmica econômica estrutural.
No Brasil, esse impulso encontra terreno fértil em setores nos quais o país já possui tradição e relevância, como a moda praia, além de fitness e lingerie. São categorias com alta afinidade com tecidos tecnológicos e com forte presença de fibras sintéticas no mix de matérias-primas.
Relatórios internacionais de materiais apontam a poliamida como uma das fibras mais relevantes em volume global, ao mesmo tempo em que evidenciam os desafios para ampliar a circularidade em escala. Na prática, isso tem acelerado o desenvolvimento de soluções já presentes no mercado: poliamidas de base renovável obtidas a partir de biomassa, poliamidas recicladas oriundas de resíduos industriais, fios não tingidos ou com etapas reduzidas de tingimento, diminuindo consumo de água e energia, além da aditivação funcional em fibra, como micropartículas minerais ou cerâmicas que alteram a sensação térmica e o comportamento do tecido durante o uso.
Essas tecnologias não surgem por acaso. Elas respondem a demandas concretas do consumidor contemporâneo: mais conforto no calor, durabilidade ampliada, manutenção da aparência após uso repetido e processos produtivos mais eficientes. No entanto, esse avanço convive com uma característica estrutural da cadeia têxtil brasileira: o país não produz o fio de poliamida 6 e depende integralmente da importação para abastecer sua indústria.
É nesse contexto que fornecedores internacionais passaram a ocupar o centro do debate recente sobre medidas antidumping. As sobretaxas em discussão, que adicionam cerca de US$ 1,97 por quilo ao custo do fio importado, cujo preço médio gira em torno de US$ 2,60/kg, acenderam um alerta no setor. Não há produção nacional equivalente desse insumo, e o impacto tende a se espalhar por toda a cadeia, pressionando custos, influenciando decisões de produção e afetando a competitividade frente a produtos importados já acabados.
Para a indústria e para as marcas, o tema vai além do custo imediato. A poliamida 6 é a base de grande parte das inovações que sustentam a moda de desempenho. Qualquer restrição de acesso ou encarecimento do insumo pode limitar investimentos em desenvolvimento de novos produtos e em diferenciação tecnológica, justamente os fatores que permitem ao Brasil competir em segmentos de maior valor agregado.
O que se desenha a partir de 2026 é uma tendência clara: a consolidação da moda que comprova benefício. Uma moda em que material, construção e tecnologia atuam de forma integrada para entregar conforto, funcionalidade e responsabilidade de maneira verificável. É nesse cruzamento entre consumo, inovação e desempenho que a poliamida 6 se firma como fibra estratégica e como uma das chaves para compreender o futuro do vestir no Brasil.








