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Novas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros: o que muda, o que fica de fora e o que o brasil pode fazer

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Jackson Campos, especialista em comércio exterior, explica as duas frentes tarifárias, de 25% e 12,5%, e o que está em jogo na relação comercial entre os países

Os Estados Unidos anunciaram recentemente a proposta de uma tarifa de 25% sobre uma série de produtos brasileiros exportados ao mercado americano. A medida, ainda em fase de consulta pública antes de entrar em vigor, com prazo legal em 15 de julho de 2026, marca uma mudança no tom das relações comerciais entre os dois países e já gera incerteza para empresas, exportadores e cadeias produtivas no Brasil.

Diferentemente de medidas anteriores de caráter mais político, esta proposta tem base formal: ela foi construída a partir de uma investigação da Seção 301, instrumento legal dos EUA que permite ao governo americano agir contra práticas que considere prejudiciais ao comércio nacional. 

“O anúncio dessa tarifa mostra uma mudança importante na estratégia dos Estados Unidos. Diferentemente das medidas anteriores, que tinham um componente mais político, a nova proposta está sendo construída com base em uma investigação comercial e mira temas como barreiras comerciais, propriedade intelectual, serviços digitais e acesso a mercado”, afirma Jackson Campos, especialista em comércio exterior. 

O que está em jogo e para quem

Para o exportador brasileiro, a tarifa significa custos mais altos para chegar ao mercado americano. Na prática, um produto que antes entrava nos EUA livre de sobretaxa passa a concorrer em desvantagem com similares de países não afetados pela medida. O impacto é especialmente relevante para bens industriais, produtos manufaturados, químicos e itens com margens de lucro mais estreitas.

Mas não é só questão de preço. A incerteza já pesa sobre contratos em andamento, planejamento de embarques e decisões de novos investimentos voltados ao mercado americano. Mesmo antes de a tarifa entrar em vigor, o anúncio altera o cálculo de risco para quem depende desse destino.

De acordo com o especialista, o novo anúncio aumenta a incerteza para o exportador brasileiro, porque agora há duas frentes tarifárias em discussão nos Estados Unidos: uma de 25% específica contra o Brasil e outra de 12,5% dentro de uma investigação global sobre trabalho forçado. “Embora ainda não estejam em vigor, essas medidas já pesam sobre contratos, planejamento de embarques e decisões comerciais.”

O que o Brasil pode fazer

O período de consulta pública, com envio de comentários até 1º de julho e audiência pública em 6 de julho, abre espaço para o Brasil atuar na tentativa de reverter ou reduzir a tarifa. A estratégia, segundo especialistas, passa por uma atuação técnica e diplomática simultânea e não necessariamente significa ceder em questões consideradas estratégicas, como o sistema de pagamentos instantâneos Pix.

Isso porque a investigação americana é mais ampla, envolve comércio digital, propriedade intelectual, acesso a mercado e barreiras regulatórias. Segundo Jackson Campos, em negociações desse tipo, é comum buscar soluções setoriais e ajustes técnicos que reduzam tensões sem exigir concessões em áreas sensíveis. O resultado vai depender da disposição dos dois lados de negociar e da relevância de cada tema dentro da investigação.

“Existe espaço para o Brasil tentar reverter ou reduzir a taxação sem colocar o Pix no centro da negociação, porque a investigação americana é mais ampla e envolve diversos temas além dos meios de pagamento. Em negociações desse tipo, é comum que os países busquem soluções setoriais, ajustes técnicos ou compromissos específicos para reduzir tensões comerciais sem necessariamente alterar políticas consideradas estratégicas internamente”, pontua Campos. 

Além disso, o impacto da tarifa não será uniforme. Os segmentos com maior exposição são aqueles que dependem mais do mercado americano e têm menor capacidade de redirecionar rapidamente suas exportações para outros destinos. “Para o Brasil, o risco não é apenas vender menos, mas perder margem, competitividade e acelerar a busca por outros destinos, como China, União Europeia e novos mercados.”

O que ficou fora da tarifa

Um ponto relevante da proposta americana é que vários produtos estratégicos da pauta exportadora brasileira foram excluídos da taxação, o que reduz o impacto imediato sobre alguns dos principais itens exportados. Confira a lista por categoria:

Produtos alimentícios e agrícolas

  • Carne bovina: cortes frescos, refrigerados ou congelados, miúdos, carne enlatada e carne seca ou defumada
  • Frutos do mar e derivados: corais, conchas e materiais similares
  • Hortaliças e fungos: chuchu, brotos de bambu, castanhas-d’água, cogumelos shiitake
  • Raízes e tubérculos: mandioca (fresca, congelada ou seca), taro, araruta
  • Frutas: tomates, cocos, fruta-pão, bananas, abacaxis, abacates, goiabas, mangas, laranjas, papaias
  • Nozes: cocos, castanhas-do-pará, castanhas-de-caju, macadâmias
  • Café e estimulantes: café torrado, não torrado e descafeinado, chá verde, chá preto, erva-mate
  • Cacau e derivados: grãos, cascas, pasta, manteiga e pó de cacau
  • Especiarias: pimenta, baunilha, canela, cravo, noz-moscada, gengibre, açafrão e cúrcuma
  • Produtos processados: amido de mandioca, tapioca, sucos de frutas e preparações de açaí

Recursos naturais, minerais e combustíveis

  • Minérios: ferro, manganês, cobre, níquel, cobalto, alumínio, zinco, estanho, cromo, tungstênio, urânio, titânio e prata
  • Minerais: grafite natural, caulim, fosfatos de cálcio, magnésita e outros
  • Energia e combustíveis: carvão, coque, óleos de petróleo (crus e refinados), gás natural liquefeito, propano, butano

Produtos químicos, fertilizantes e medicamentos

  • Químicos industriais: iodo, silício, óxidos de zinco e titânio, compostos orgânicos e inorgânicos
  • Fertilizantes: ureia, sulfato de amônio, nitrato de sódio, cloreto de potássio
  • Saúde e farmacêuticos: vacinas, antibióticos, hormônios (insulina, cortisona), vitaminas e contraceptivos

Setor aeroespacial e itens industriais

  • Motores e peças: motores de pistão, turbojatos, turbopropulsores e suas partes
  • Componentes de voo: hélices, rotores, trens de pouso e fuselagens
  • Equipamentos internos: assentos de aeronaves, caixas-pretas, instrumentos de navegação
  • Madeira: teca, mogno, balsa e virola
  • Papel e celulose: polpa de madeira química e produtos de papel
  • Metais preciosos: ouro, prata e platina
  • Tecnologia: máquinas para fabricação de semicondutores, circuitos integrados e processadores

O que vem a seguir

O processo ainda não está encerrado. Haverá um período de consulta pública e audiências antes da decisão definitiva, com aplicação prevista para 15 de julho de 2026. Nesse intervalo, o Brasil terá a oportunidade de apresentar argumentos técnicos, mobilizar setores afetados e conduzir negociações diplomáticas para tentar reduzir o alcance da medida.

O que está claro, no entanto, é que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma fase de maior tensão e complexidade, e que navegar nesse cenário vai exigir precisão técnica, articulação política e estratégia de longo prazo.

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